Lista de Maneton


Maneton de Sebenito foi educado na cidade de Mendes, no Delta, mas foi em Heliópolis (não no Clero de Ra, mas no de Osíris) que ele adquiriu prestígio, visto que ingressou no Clero de Osíris e lá cresceu até se tornar um Alto Sacerdote. Sendo o único Egípcio a integrar o séqüito mais próximo de Ptolomeu I, Maneton escreveu em 304 a.C, a Egipicíaca (obra em que contava toda a História do Egito desde a unificação até o governo de Ptolomeu I, mas que hoje se encontra perdida, sendo que dela só sabemos algumas coisas devido à obra “Contra Apião” de Josefo, cronista Judeu Romanizado que fez uso da Egipcíaca de Maneton para associar os Hycsos aos Hebreus e provar a antiguidade do povo Hebreu, bem como para demonstrar que eles não descendiam dos Egípcios, como sugeriam alguns), obra que se insere perfeitamente no contexto da Antiguidade, quando homens como Tito Lívio, por exemplo, dedicavam suas vidas a compor a História de seus países desde sua fundação até a vida do autor.

Aegyptiaca - Maneton - Pesquisador Urandir

Contudo, se a Egipcíaca não nos chegou, por outro lado, as listas de Reis que Maneton também compusera nos chegaram e, dessa maneira, hoje podemos saber os nomes (senão de todos, visto que Akhenaton, Tutankhamon, Aya e Semenkhare, por exemplo, não constam dessas listas, da maioria) dos Faraós que governaram o Egito. As listas de Reis e a Egipcíaca foram, com certeza, muito apreciadas por Ptolomeu I, porém, para o Monarca, o maior feito de Maneton não foi nenhum destes, mas sim, a criação de Serápis, a Divindade padroeira de Alexandria, criada para suprir as exigências de Gregos e Egípcios e, em si, ratificar a unidade nacional sob a nova Dinastia. Serápis não foi criado à partir do nada, na verdade, Maneton, ao criá-lo, inspirou-se no Deus de quem era sacerdote, ou seja, Osíris e no culto mais forte do Egito de então, ou seja o culto ao Boi Ápis.

Como pouco antes da criação de Serápis, Ptolomeu se havia feito divinizar como sendo uma encarnação de Dionísio (o que reforça as teorias de que o séqüito mais próximo de Alexandre, entre eles, sua mãe e até seus amigos, fossem adeptos das orgias Dionisíacas, vistas na Grécia com maus olhos por aquela época), tudo o que Maneton fez foi fundir os cultos de Ápis e Osíris (que já eram co-relacionados, visto que Ápis, após a morte, se tornava Osíris em Amentet) ao culto a Dionísio e, dessa maneira, criar Serápis que era retratado com as feições de Zeus.

A primeira coisa que aprendemos sobre os faraós do Egito antigo é que pertenciam a dinastias, começando com a Dinastia 0, aquela do legendário Meni (c. 3200 a.e.c.), que uniu o Alto e o Baixo Egito e fundou Mêníis, até a última, a XXXI Dinastia, a ptolemaica, que se extinguiu quando Cleópatra se suicidou em 30 a.C.

O homem que primeiro listou esses governantes do Egito antigo foi um sacerdote e historiador chamado Maneton, que também fazia parte do séquito de Ptolemeu I. Nativo do Egito e único elemento local dentro de um círculo social exclusivamente helénico, era um estranho nesse ninho cultural, pois eram raros os homens letrados egípcios que alcançavam altos postos na corte ou no Museu e Biblioteca durante os trezentos anos de domínio ptolemaico.

Maneton - Pesquisador Urandir

São escassos os registros sobre sua vida, mas sabemos que nasceu em uma cidade do Delta chamada Sebenito, foi educado em Mendes e depois em Heliópolis, onde se tornou sacerdote e subsequentemente Alto Sacerdote, provavelmente no templo do deus Osíris. Foi a partir dos registros secretos do templo que ele reuniu material para sua obra principal, a Egipcíaca que cobria a história do Egito desde os tempos pré-dinásticos até Nectanebos, o faraó que reinara até a década em que Alexandre surgiria em cena.

Na Egipcíaca parece que Maneton dava detalhes não somente da invasão dos hicsos, mas também da eleição de seu rei, de como transferiram sua capital de Mênfis para Avaris, no delta oriental, da revolta final dos egípcios contra ele, de sua partida (que Josefo identificava com o Exôdo) e de sua chegada à Judeia, onde fundaram Jerusalém. Além desses fatos históricos, parece que a Egipcíaca também fornecia inúmeros detalhes, como a descrição de almofadas de ar que eram usadas para o transporte de obeliscos. Eram feitas de couro curtido indestrutível e tratadas com o mesmo processo usado para preservar as múmias.

Felizmente, embora os três livros que compõem a lista dos reis tenham sido perdidos, dois cronógrafos cristãos os registraram. Um era o viajante inveterado Sexto Júlio Africano que se refere a eles em uma história do mundo desde a Criação até Cristo (5.499 anos no total, segundo ele), e cujos cálculos de datas foram adotados pela maioria das igrejas orientais. O outro era um monge bizantino chamado Giórgio Sincelo que, enclausurado em sua cela monástica na virada do século IX, elaborou listas na qual delineou a história do mundo, desde Adão até o imperador Diocleciano.

Devido às Listas de Reis, Maneton era aclamado como o cronista por excelência da civilização do Egito antigo quando Champollion decifrou a chave hieróglifa com a ajuda da Pedra de Roseta. Todas as histórias dos faraós são baseadas na cronologia dinástica desse sacerdote egípcio, e as Listas de Reis permanecem até hoje como um elemento básico de egiptologia.

De modo bastante estranho, Maneton não recebeu em vida muitos créditos como historiador. Na verdade, nem ele nem Hecateu, seu contemporâneo, nem cronistas posteriores como Istro, Filisto ou Cáron provocaram muito impacto em suas épocas. Mas Maneton tinha um segundo trunfo na manga que o alçaria à dianteira da cultura alexandrina em outra especialidade.

Com o enorme afluxo de gregos para a nova capital do Egito, Ptolomeu I Sóter decidiu que a cidade precisava de um deus padroeiro próprio; uma divindade novinha em folha com a qual tanto os recém-chegados quanto os habitantes locais se identificassem. E Maneton foi um dos dois homens que o rei consultou sobre esse assunto.

A escolha real recaiu naturalmente sobre ele, dado que era totalmente versado nas sutilezas do panteão egípcio e também tinha um conhecimento completo do mundo grego e helenístico, assim, estava eminentemente preparado para encontrar uma solução aceitável para todos.

Nessa arriscada empreitada, na qual as suscetibilidades eram facilmente feridas, ele foi ajudado por Timóteo de Atenas, membro de uma família de sacerdotes envolvidos nos ritos de misteno e Deméter29 e de sua filha Perséfone30 em seus santuários de Elêusis e Delfos. Os dois tiveram a sorte de inventar uma divindade capaz de satisfazer às aspirações e sensibilidades religiosas tanto dos egípcios quanto dos gregos, bem como aos caprichos de um rei a cuja megalomania dinástica não era nada fácil de atender.

A divindade em questão era chamada Serápis, uma mistura de Osíris e Apis, respectivamente os nomes do principal deus dos mortos egípcio e do deus-touro de Mênfis, venerado como a re-encarnação do deus Ptah. Habilmente retratado com o corpo e as feições do deus grego Zeus, era uma figura paterna que confortava e inspirava a população helénica da cidade.

As opiniões divergem quanto ao papel efetivo de Maneton nessa história toda, e, como de praxe, várias lendas estão ligadas a ela. De acordo com Tácito, o que aconteceu foi que Ptolomeu I sonhara com um jovem semelhante a um deus, que, antes de ser carregado aos céus em um redemoinho de chamas, disse-lhe que mandasse buscar de Ponto uma estátua particular. O rei logo consultou os especialistas nesse assunto, especialmente Maneton e Timóteo, que depois de três anos de dura barganha persuadiram o governante de Sínope, onde a estátua estava localizada, a permitir que Ptolomeu ficasse com ela. Por fim, a estátua chegou a Alexandria e foi colocada em um templo dedicado a Serápis e Isis. Outras versões sustentam que Maneton ouviu falar de uma estátua que parecia preencher os requisitos e negociou sua compra sem que o rei soubesse. Plutarco embelezou a história acrescentando que Maneton e Timóteo imediatamente identificaram a estátua, supostamente esculpida por Briáxis, como sendo de Júpiter Dis, em outras palavras, Plutão, por causa de uma escultura de Cérbero com uma cobra a seu lado, e assim foram capazes de assegurar a Ptolomeu I que ela era, de fato, a manifestação do novo deus padroeiro de Alexandria, Serápis Plutão.

Qualquer que seja a verdade, Maneton deve ter desempenhado um papel importante no estabelecimento do culto a Serápis e na dádiva a Alexandria de uma divindade que seria a mais venerada nos três séculos seguintes. E eficiente, se acreditarmos na história de Demétrio Falereu, que, vitimado pela cegueira, deveu sua recuperação a Serápis. Se ela for verdadeira, Maneton merece louvores, pois isso mostraria quão efetivos se revelaram os poderes curativos do novo deus quando testados.

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