Tratado de Kadesh: Primeiro Tratado Internacional de Paz


Tratado de Kadesh - Pesquisador UrandirO Tratado Egípcio-Hitita, usualmente designado por Tratado de Kadesh, foi um tratado de paz celebrado entre o faraó egípcio Ramsés II e o rei hitita Hatusil III que marcou o fim oficial das negociações entre as duas grandes potências do Médio Oriente, que se seguiram aos conflitos armados de grandes proporções que culminaram na célebre batalha de Kadesh, travada 16 anos antes. O acordo tinha como objetivo o estabelecimento de relações pacíficas entre as duas partes.

É o acordo diplomático e tratado de paz mais antigo do mundo que sobreviveu até aos nossos dias. A designação muito comum de Tratado de Kadesh está relacionada com a batalha homónima, mas os historiadores modernos consideram que aquela batalha não foi o catalisador da tentativa de paz, pois as relações entre os hititas e os egípcios continuaram a ser de inimigos durante muitos anos após o confronto.

Os termos do tratado foram escritos numa tabuleta de prata que foi oferecida a Ramsés II por diplomatas hititas e que foi perdida. O texto conhece-se pelas cópias contemporâneas existentes em paredes de templos egípcios em escrita hieroglífica e em tabuletas de barro no Império Hitita (atualmente território da Turquia). Um exemplar completo do tratado, atualmente em exposição no Museu Arqueológico de Istambul, foi descoberto em escavações arqueológicas nos grandes arquivos do palácio real da capital hitita, Hattusa. Os escribas que escreveram a versão egípcia do tratado que se encontra gravada nas paredes do templo mortuário de Ramsés II em Tebas, no Egito (atual Luxor), incluíram descrições de figuras e selos que constavam da tabuleta de prata hitita.

O tratado foi assinado para pôr termo a uma longa guerra entre os hititas e os egípcios, que lutaram durante Texto ilustrado do tratado gravado numa parede no interior do complexo de Karnak - Pesquisador Urandirmais de dois séculos pelo domínio dos territórios do Mediterrâneo Oriental. O conflito culminou com a tentativa de invasão egípcia em 1 274 a.C., que foi travada pelos hititas na cidade de Kadesh, nas margens do rio Orontes, a pouca distância da atual cidade síria de Homs. A batalha resultou em pesadas baixas em ambos os lados, apesar de não ter resultado numa derrota ou vitória clara para qualquer dos lados, quer na batalha quer na guerra, pelo que o conflito continuou inconclusivo durante cerca de quinze anos, até que o tratado foi assinado.

Apesar do nome comum de “Tratado de Kadesh”, ele foi assinado muito depois da batalha e Kadesh nem sequer é mencionada no texto. Pensa-se que terá sido negociado por intermediários, sem que os dois monarcas tivessem chegado a encontrar-se pessoalmente. Ambos os lados tinham interesses comuns na paz — o Egito sofria da ameaça crescente dos “Povos do Mar”, ao passo que os hititas estavam preocupados com o aumento do poder da Assíria, a leste. O tratado foi ratificado no 21º ano do reinado de Ramsés II (1 258 a.C.) e continuou em vigor até ao colapso do Império Hitita 80 anos depois.

Batalha de Kadesh

O que se sabe desta batalha deriva principalmente dos relatos literários egípcios conhecidos como o Boletim ou o Registo e o Poema, além de relevos existentes no Ramesseum (o templo funerário de Ramsés II em Tebas). Infelizmente para os historiadores e outros estudiosos da batalha de Kadesh, os detalhes fornecidos por essas fontes são interpretações fortemente parciais dos eventos. Dado que Ramsés II tinha controlo total sobre os projetos de construção, estes eram usados com objetivos propagandísticos pelo faraó, que os usava para se vangloriar sobre a sua alegada vitória em Kadesh.

Apesar das incertezas, sabe-se que Ramsés marchou através da Síria com quatro divisões de tropas, tendo como objetivo acaRamsés II combatendo na batalha de Kadesh - Pesquisador Urandirbar com a presença hitita na região. O rei hitita Muwatalli II reuniu um exército com os seus aliados para evitar a invasão do seu território. No sítio de Kadesh, Ramsés distanciou-se insensatamente do resto das suas forças e acampou junto à cidade, confiando em informações de espionagem pouco fiáveis, relativas à posição das forças hititas, fornecidas por um par de prisioneiros capturados. Os exércitos hititas, escondidos atrás da cidade, lançaram um ataque surpresa contra a divisão egípcia Amun, que rapidamente se dispersou. Apesar de Ramsés ter tentado reunir as suas tropas contra a carnificina provocada pelas bigas hititas, só a chegada de reforços de tropas de Amurru permitiu repelir o ataque hitita.

Apesar de os egípcios terem sobrevivido aos terríveis apuros em que se viram envolvidos em Kadesh, a batalha esteve longe de ser a esplêndida vitória apresentada por Ramsés, e o seu resultado foi um impasse no qual ambos os lados sofreram pesadas baixas. Depois de uma tentativa infrutífera de ganhar mais terreno no dia seguinte, Ramsés retirou para sul, para o Baixo Egito, vangloriando-se dos seus feitos pessoais durante a batalha de Kadesh. Apesar de tecnicamente ter ganho a batalha, Ramsés acabou por perder a guerra quando Muwatalli e o seu exército reconquistaram Amurru e ampliaram a zona tampão com o Egito em direção ao sul.

A versão egípcia do tratado de paz foi preservada numa estela no templo de Amon, em Karnak e em cópias existentes nos templos de Luxor e Abidos. Jean-François Champollion copiou uma parte do texto em 1828 e publicou as suas descobertas em 1844. O texto egípcio descreve uma grande batalha contra o “Grande Rei de Khatti”, então uma figura desconhecida, cuja identificação posterior com o monarca hitita Muwatalli II foi confirmada por outras provas arqueológicas.

Duas das tabuletas estão atualmente em exposição na secção do Oriente dos Museus Arqueológicos de IEstátua de Ramsés II em Luxor - Pesquisador Urandirstambul. A terceira está exposta nos Museus Estatais de Berlim. Uma cópia do tratado está exposta em posição de destaque numa parede da Sede das Nações Unidas em Nova Iorque.

O tratado proclama que no futuro ambos os lados ficariam em paz para sempre, comprometendo os filhos e netos de ambas as partes. Não cometeriam atos de agressão entre eles, repatriariam os refugiados políticos e criminosos e apoiar-se-iam mutuamente na supressão de rebeliões. Cada uma das partes acorreria em auxílio da outra em caso de ameaça externa: E se outro inimigo viesse [contra] a terra de Hatti […] o grande rei do Egito enviará as suas tropas e as suas bigas e chacinará o seu inimigo e restaurará confiança na terra de Hatti.

O texto acaba com um juramento solene perante mil deuses, deuses masculinos e deuses femininos das terras do Egito e de Hatti, testemunhado pelas montanhas e rios das terras do Egito, o céu; a terra; o grande mar; os ventos; as nuvens. Se o tratado fosse violado, aquele que quebrasse juramento seria amaldiçoado pelos deuses que destruirão a sua casa, a sua terra e os seus servos. De forma recíproca, aquele que mantivesse os seus votos seria recompensado pelos deuses, que que o tornarão saudável e o farão viver.

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